A Minha Filosofia

Eu ficarei para sempre com o que disse Zoroastro, grande sábio persa do século VI a.C., que resumiu o que é estar no caminho correto em apenas uma singela frase:

"BONS PENSAMENTOS, BOAS PALAVRAS, E BOAS AÇÕES."

Quero fazer deste princípio o meu viver, incorporar em tudo o que sou a essência desta visão tão simples, para conseguir estar bem com o mundo e comigo mesmo antes de qualquer coisa.

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jueves, 18 de agosto de 2011

Viajar, viajar!

   

   Houve um talentoso poeta persa no século XII chamado Anvarí, que acerca dos benefícios das viagens, disse o seguinte: "Ao viajar, o homem se instrui; recebe honras, encontra nelas um tesouro de riqueza; as viagens ensinam talentos. Daquela região onde te tornaste desprezado aos olhos dos seres humanos, muda-te logo para ires a um outro canto. Se a árvore pudesse mover-se e ir de lugar em lugar, não receberia os golpes do machado. Ao viver em sua cidade natal, o ser humano permanece sem méritos; enquanto a jóia ainda está na mina ela não possui valor. É preciso que tu observes bem o estado da terra e do céu: se um permanece imóvel, o outro está incessantemente em viagem."

   Eu viajei. Na verdade, ainda viajo. Mais verdade ainda, sempre viajei, estou sempre em viagem. Pela viagem física, mudei de lugar, pelas viagens interiores, descubro-me a mim, aos outros, descubro os meus caminhos, os caminhos do mundo. Estou de volta à São Paulo. Comecei um novo trabalho. Eu me tornei professor, quem diria? Ensino espanhol e francês numa ONG, tenho já meus primeiros alunos, gosto do local de trabalho e pretendo progredir, dar tudo o que posso para que eles aprendam bem.

  No coração, além das lembranças, evidentemente os planos. E Lisboa virá até mim em breve, assim espero. Pelo amor, pela vida, pelo sonho. Em suma, posso dizer que tenho um lugar? Meu lugar é o mundo, e meus companheiros são as criaturas que nele estão, inclusive as que só existem dentro de mim.

   O mundo é tão grande, tão vasto, há tanto a se descobrir. Alegra-me saber que tenho um imenso caminho a palmilhar diante de mim. Isso conforta-me imensamente. Por um lado, há a falta de muito que ainda não consegui realizar em minha vida, há a ausência de uma companhia, há a solidão imensa que nunca me deixa e que eu procuro disfarçar com milhares de palavras... por outro, tenho os sonhos, que persigo com uma vontade que beira ao desespero. Na viagem interna que ralizo todos os dias ao âmago dos meus pensamentos mais íntimos, sinto que ainda viverei algo de grande, de muito grande.


domingo, 16 de mayo de 2010

Um pouco de Florbela Espanca

Este vídeo acima é um poema de Florbela Espanca cantado por Mariza

  Muita gente publica textos de Florbela Espanca na Internet, mas poucos sabem algo sobre esta poetisa, especialmente aqui no Brasil. Então, o post de hoje será sobre ela, e é por certo um tema maravilhoso.

 Havia na cidadezinha alentejana  de Vila Viçosa ao centro-sul de Portugal, não longe da fronteira com Espanha, um homem rico chamado João Maria Espanca, casado com Marina Inglesa desde 1887. Era sapateiro e antiquário, e posteriormente viria a ser um dos pioneiros no cinematógrafo em Portugal. Sua mulher era estéril, porém ele queria ser pai, recorrendo então à um antigo costume medieval segundo o qual um homem é autorizado a cometer adultério se sua esposa não lhe dá filhos para que os filhos que nasçam dessa relação fora do casamento posteriormente sejam trazidos para a sua casa. Marina concorda, e João procura Antónia Lobo, uma mulher humilde, mas muito bonita e cobiçada da vila, que trabalhava como criada, e depois de raptá-la e mantê-la escondida, nasce a menina que recebe o nome de Flor Bela Lobo em 8 de Dezembro de 1894 , tendo como madrinha a mulher legítima de seu pai e sendo registada como filha de Antónia e de pai incógnito. Foi levada para a casa dele, sendo cuidada pela madrinha e amamentada pela mãe. Seu pai foi reconhecê-la somente muitos e muitos anos depois (1949), após a morte da poetisa, quando ele já contava 83 anos!

 Sua relação com o pai era de admiração total por ele, um homem com comportamento hipócrita: exigia dos filhos obediência total, mas era distante. Mulherengo, teve várias amantes e com elas vários filhos que recusava-se a reconhecer também. Florbela nunca viu a paixão do pai pelas mulheres como um problema, pelo contrário, foi dele que herdou seu "donjuanismo". Porém, à filha, João não aprovava o comportamento solto, chegando inclusive a romper as relações com ela durante dois anos, quando de seu segundo divórcio. É provável que sua infância não tenha sido feliz, um pai pouco afectivo e a falta da mãe verdadeira atestam isso. Sua infância muitas vezes dá inspiração à sua obra, e esse período pobre em vivências de sua vida nunca foi superado por ela.

 Florbela tinha uma doença (uma neurose chamada neurastenia) herdada da mãe, a mesma que a matou. Através dela, Florbela conheceu abortos, envelhecimento precoce, nervosismo e ansiedade, circunstâncias que, aliadas a episódios de sua vida (como a morte do irmão) e ao seu consumo de soporíferos e cigarros, contribuíram para o enfraquecimento progressivo de sua saúde física e mental. Florbela era depressiva e vivia em estado de constante insatisfação.

 O primeiro poema ela escreveu aos sete anos. Nele, pode-se perceber a precocidade de Florbela. Trata-se de "A Vida e a Morte", que segue-se abaixo:

A Vida e a Morte
O que é a vida e a morte
Aquela infernal inimiga
A vida é o sorriso
E a morte da vida a guarida 
A morte tem os desgostos
A vida tem os felizes
A cova tem as tristezas
A vida tem as raízes 
A vida e a morte são
O sorriso lisonjeiro
E o amor tem o navio
E o navio o marinheiro 

Quando a mãe de Florbela morre, em 1908, sua família muda-se e a leva para Évora, uma cidade maior, onde ela dá continuidade aos estudos. Lá, descobre o amor. Namora com  José Marques e Alberto Moutinho, terminando por casar-se com este no dia do seu aniversário de 19 anos, no civil. Teve três casamentos no decorrer de sua vida, e dois divórcios. Florbela passeou pelo magistério e pelo jornalismo, foi tradutora de romances franceses, estudou letras e iniciou a faculdade de direito, que não chegou a concluir. Sua obra, fosse em cadernos que escrevia, fosse em livros ou poemas dispersos que publicava, saiu lentamente, sem pressa, até que morreu, no dia de seu aniversário de 36 anos.

 Embora seja bem provável que Florbela tenha morrido de suicídio, é preciso ressaltar que trata-se apenas de uma hipótese. Não há provas. Mas, se foi, foram cerca de duas horas de agonia, pois ela tomou muitos remédios (com a intenção de matar-se ou não?). Debaixo de sua cama, foram encontrados dois frascos do soporífero Veronal (usado na época) completamente vazios. Não fora a primeira vez que tentou matar-se.

 Foi uma mulher avançada demais para seu tempo, fosse pelo espírito livre e independente, fosse pelas roupas que usava e pelos comportamentos que assumia. Divorciada e casada várias vezes, escritora com carga erótica e ainda por cima uma filha ilegítima, sua vida foi cercada de boatos e rejeição, só recebendo reconhecimento como grande poetisa após sua morte, ao que muito contribuiu o suicídio (real ou não) para chamar a atenção das pessoas sobre quem era aquela figura enigmática e melancólica, com mania de evasão da realidade cinzenta do comum da vida e sonhos românticos. Estava prestes a publicar o seu terceiro livro, Charneca em Flor... Hoje, é considerada uma das maiores figuras femininas da literatura universal, e seus poemas, e com menor força os contos, são lidos até hoje. As palavras mais usadas em seus escritos mostram o quanto era intimista e dotada de um ardente desejo e ânsia de vivenciar algo extraordinário e grande - alma, amor, saudade, beijos, olhar, versos, poeta e os termos derivados dessas palavras.
Errante
Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!