Tenho que pedir desculpas aos amigos que me visitaram, desejando um bom fim de ano, congratulando-me pelo ano-novo e pelo meu aniversário. Não os visitei por estar a traduzir livros de poesia persa clássica, e em função disso meu tempo dedicado ao blogue tem estado cada vez mais reduzido. Mas semana que vem pretendo recuperar um pouco do atraso, e da maneira que costumo fazer: lendo com atenção os textos, e não somente os últimos. Me aguardem.
Hoje é uma data especial para mim. Há 24 anos atrás eu nascia, na véspera do Dia de Reis e sob o signo astrológico de Capricórnio, a décima casa zodiacal. Capricornianos não são pessoas fáceis, vocês sabem. Outra pessoa que nasceu nesse dia foi a poetisa iraniana Farough Farrokhzad (pronuncia-se Forúg ForoRRzód). Ela foi uma das maiores figuras da nova poesia persa, ou seja, aquela que é produzida pelos autores de língua persa, ou farsi, que é falada por todos os persas, sejam eles iranianos, afegãos, tadjiques ou de outras nacionalidades. O persa é um idioma famoso pela sua doçura entre os povos do Médio Oriente, e tem uma literatura de mais de 2500 anos. Farough Farrokhzad (1935-1967) é uma das mulheres que mais se destacaram no universo cultural persa, e são dela os versos que compartilho abaixo. Trata-se duma tradução livre que fiz a partir do francês (fonte: aqui). Espero que gostem.
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| Paisagem, sem data. Aquarela sobre papel do pintor iraniano Hossein Kazemi (1924-1996) |
O VENTO NOS CONDUZIRÁ
Farough Farrokhzad
Em minha noite, tão breve, ai de mim!
O vento tem com as folhas um encontro marcado.
Minha noite tão fugaz é cheia de períodos de ansiedade devastadora.
Escuta! Podes ouvir o sopro da escuridão?
Com esta felicidade não tenho familiaridade.
Ao desespero meu coração está acostumado.
Escuta! Podes ouvir o sopro da escuridão?
Lá, na noite, algo está a se passar.
A lua está angustiada e avermelhada.
E ao teto pendurada,
Arriscando-se a tombar a cada momento.
As nuvens, como uma multidão de enlutados
Aguardam da chuva o nascimento,
Um instante e nada mais.
Além desta janela
A noite está a se estremecer
E a terra parou de girar.
Além desta janela por nós dois se inquieta um desconhecido.
Tu, envolto em verdes vestimentas,
Pousas as mãos - plenas de memórias ardentes -
Em minhas mãos amorosas,
E entregas teus lábios saciados do calor da vida
Aos meus lábios amorosos.
O vento nos conduzirá!
O vento nos conduzirá!
