Francisco Beltrão, uma pequena cidade do interior do Estado do Paraná, é onde vivo faz alguns meses. Eu trabalho na Sadia, uma fábrica de produtos alimentícios. No turno da noite, ou seja, das 23 horas às 4 da madrugada. Volto para casa todo dia à pé. Hoje, era mais ou menos 4:25 quando tudo aconteceu, não era nem quatro e meia. Um sujeito com arma invocou comigo, e me encarou. Começou a fazer muitas perguntas, onde eu trabalhava, onde morava, que idade tinha. Perguntou se eu era gay, e eu neguei é claro. Estava com muito medo, mas algo dentro de mim não me deixava demonstrar. Eu sabia que qualquer passo em falso seria fatal, ele poderia estar a esperar qualquer reacção minha para dar-me um tiro à queima roupa ali mesmo, na rua. Fiquei firme, tentei manter uma aparência relaxada, e fui cauteloso em cada palavra que eu disse. Lembrei que o medo, ele atiça o instinto maligno de quem o tem. Olhei nos olhos dele o tempo todo.
Ele falou mal da roupa que eu estava a usar, disse que eu não devia estar com um cachecol no pescoço (o meu querido cachecol azul!), criticou com nojo a minha maneira de andar, disse que eu devo cortar os cabelos. Fiquei revoltado, mas não deixei transparecer. Fui embora, quando ele deixou, ziguezagueando, com medo de olhar para trás. Ele tinha me "convidado" para ir ali, num canto, num mato, e eu sei que se ele me obrigasse, seria o fim, mas eu estava disposto a recusar até o fim se fosse preciso! Por que eu iria?! Só por ser "veado"?
Já não foi a primeira vez que senti o preconceito contra gays aqui nesta cidade, mas desta feita foi horrível, e até agora me sinto mal, e estou com medo. Mas, não pensem que vou cortar os cabelos ou mudar o meu guarda roupas por causa deste indivíduo! Ah, não, ele não é nada meu, não tem o direito de exigir nada de mim. Se eu pudesse, diria a ele: "Estás com uma arma, é óbvio que eu só responderei o que tu queres, e que farei o que me pedires na tua presença, só que não posso mudar a pessoa que eu sou!" Não digo, pois sei que é um ignorante, nunca deve ter lido um livro na vida. Nunca vai saber que
Saadi disse "aquele que não tem compaixão pelos seus semelhantes não merece ser chamado de homem." Nunca!
O Brasil é uma país bonito, imenso, rico em natureza e com um povo maravilhoso, porém parece estar esquecido por Deus. Tem muita pobreza, ignorância, violência.
A cada ano, entre 41 e 64 mil cidadãos são assassinados neste país! Muitos jovens na casa dos 20 anos, ou nem isso ainda, são mortos no Brasil, sem chegar a desfrutar de tudo o que poderiam viver. Eu poderia ter sido só mais um número numa estatística fria e impessoal. Mas, não mudarei, mesmo que isso me custe a vida. Onde vai parar a sociedade e a civilização se todos nós baixarmos a cabeça como cordeirinhos, se cedermos tudo ao poder do mais forte? Onde já se viu um lugar onde armas são sinónimo de status e de respeito? Estou com medo, mesmo não sendo um desespero, mas não me sinto mais seguro em lugar nenhum. E aqui é uma cidade pequena, meu Deus, não é o Rio de Janeiro! Mas eu não devo me iludir: já roubaram meu computador AQUI, já mataram um colega de trabalho AQUI (a primeira pessoa que conheci que foi morta de morte matada), tem tráfico de drogas AQUI.
Eu queria poder fazer o que bem me der na cabeça com o meu corpo, seguir a minha consciência, viver a minha vida em paz. Não estou pedindo para ir à Lua, nem para conhecer pessoalmente a Madonna! Será que é algo impossível? A realidade não permite sonhos, nem poesia, nem respeito ao próximo, nem há direitos humanos, a não ser no papel. Infelizmente, este é o país onde nasci. Sobrevivi à morte hoje, e guardarei sempre o meu cachecol de lã azul claro como lembrança deste dia, um cachecol inocente, que, enrolado em meu pescoço, a cair até a cintura, foi um dos motivos de eu quase perder a vida. Farei isso não por raiva, mas como um gesto de amor à vida. Que Deus me proteja, e proteja a todos nós.