A Minha Filosofia

Eu ficarei para sempre com o que disse Zoroastro, grande sábio persa do século VI a.C., que resumiu o que é estar no caminho correto em apenas uma singela frase:

"BONS PENSAMENTOS, BOAS PALAVRAS, E BOAS AÇÕES."

Quero fazer deste princípio o meu viver, incorporar em tudo o que sou a essência desta visão tão simples, para conseguir estar bem com o mundo e comigo mesmo antes de qualquer coisa.

lunes, 21 de junio de 2010

Lembranças

Uma pessoa carrega suas lembranças para onde vai. Pode ser que pareça que tudo se acalmou, que o tempo cicatrizou. Mas, um dia elas surgem, bem ali diante de nossos olhos - talvez pesadas, ou talvez leves. E é quando uma tristeza qualquer bate à porta que nos recordamos de nossas lembranças mais bonitas, e elas vêm e arrasam nosso coração sem piedade.

Uma lembrança que eu tenho agora? Minha irmãzinha. É o que me vem à mente agora, bem nítido, eu vejo tudo como ainda tivesse sido ontem. Ana Carolina, eu a chamava de "Minha Cigana", pois tinha os cabelos e os olhinhos cor de mel, e adorava andar descalça e descabelada por todo canto. Depois de vários filhos homens, ela foi a segunda filha mulher de minha mãe, sendo que a primeira lhe tinha sido roubada e criada com outra família, e por isso era tão especial para nós lá em casa (pelo menos para os adultos de casa, e eu; os outros irmãos tinham ciúmes dela, hahaha). Se eu tivesse fotografia sua, publicava aqui no blogue, mas ela está somente na minha cabeça... Ah, minha ciganinha, já faz tanto tempo! Eu choro agora, sim, não tem como segurar. E, foi uma coincidência tão absurda. Recebi uma letra de música de uma amiga muito especial, e procurei o vídeo desta música. Fui ao YouTube, e encontrei o vídeo oficial... parece a minha irmã, a minha irmã que tinha 8 aninhos quando eu saí de casa, e que agora, passados 4 anos, já nem deve mais se lembrar de mim.


 Um momento em que eu fui feliz? Quando estava com ela. Ela era tão pequenina, tão indefesa, tão doce. Sentia-me orgulhoso de fazer alguma coisa por ela. Eu acordava de manhã e ia cedo para a sua escola, esperar por ela, que vinha na Combi que pegava as crianças das áreas rurais do município e levavam-nas até os colégios, que eram na cidade. Ela então descia, eu a segurava na mão e conduzia a minha ciganinha até ao portão. A escola só abria quinze para as sete, e eu ficava ali, junto com ela, porque era perigoso que ficasse sozinha na rua tão de manhã. Conversávamos, cantávamos, olhávamos as figuras dos livros. Ela me fazia perguntas, ou então me falava seus pensamentos, e se estivesse triste, eu fazia de tudo para agradá-la e conseguir dela um sorriso, mesmo que eu estivesse numa fase ruim. Éramos os irmãos mais gentis deste mundo... Conforme ia clareando, aos poucos outras pessoas chegavam, antes da escola abrir. Eram funcionárias da escola, mães e pais com seus filhos, irmãs e irmãos mais velhos que traziam os menores. Só seguro de que ela não ficaria sozinha ali na rua é que eu voltava para casa, continuar a dormir, pois estudava de noite. Fizesse frio ou calor, eu estava lá, e era um prazer, mesmo que nem sempre ela estivesse de bom humor ou muito contente... Mas o meu coração, por cuidar dela, ficava sempre em êxtase.

 Sei que agora isso já é pouco mais que passado, e tenho medo de que quando eu voltar para visitá-los (Se Deus quiser), Ana não me reconheça, que apenas minha mãe ainda lembre de mim. Tenho medo de abraçar a minha ciganinha e ela sentir que abraça a um estranho. Mas eu fui feliz! Deus, como fui feliz junto dela. Nunca, até hoje, pude segurar a mão de alguém, proteger, cuidar, dar carinho daquela forma. Nem minha mãe era muito de mimos, afinal eu era o mais velho de oito filhos, e entendia, à minha maneira. Mas, com a ciganinha loira que era o anjinho da minha irmã, eu nunca sofri um momento de dor ou de rejeição. Nunca fiz um mal a ela, nem ela a mim. Se eu pudesse pedir uma coisa à vida agora, neste exacto instante, seria para voltar no tempo e ser acordado pela minha mãe para cuidar da minha irmã enquanto ela esperava os portões da escola se abrirem.

 Ô Aninha, espero que estejas bem, e que mesmo que já tenhas me esquecido, que eu nunca perca a tua lembrança da minha memória, minha irmã, porque ela  me ajuda a me sentir vivo, entre tão poucas alegrias que eu tenho na vida. Que tu tires boas notas na classe, que brinques bastante com teus irmãozinhos e amigos, e que quando cresceres mais um pouco, conheças a afeição que eu senti contigo quando eras uma menina e eu te levava para a escola como se fôssemos passear! Eu nunca me esqueço de ti, minha irmã!

 Perdoem a minha tristeza por hoje, outra hora eu volto ao normal. Mas por agora está bom como está. Não vou abraçar vocês, porque um abraço agora e eu nunca mais desgrudaria de quem o desse.

 PS.: Graças a ti, minha irmã, que agora estás tão longe, hoje sei quem sou. A ideia que tenho de felicidade não está nos olhos, no poder ver algo bom, bonito ou que dê prazer. Para mim, felicidade é antes de mais nada algo que diz respeito ao tacto, às mãos. É poder segurar algo e sentir que ele está muito próximo, tão próximo que chega a tocar o coração. Graças às lembranças que tenho da vontade de toque de minha mãe ou de quem já namorou comigo um dia, ou seja, desses afectos, desses carinhos que eu nunca recebi, eu sei o que é o desejo. Mas é à minha irmã que eu devo a felicidade de ter descoberto o que é a alegria, ainda que só um pouquinho. Por mais que eu volte para ver minha mãe e ela me abrace finalmente, como eu tanto queria, e por mais que eu consiga um dia encontrar quem sinta o desejo sincero e espontâneo de fazer um carinho no meu rosto, a verdade é que foi graças à ti, ciganinha, que eu sei o que é ser gente. Só tu me fizeste feliz alguma vez. Deus sabe o quanto eu tenho saudade.


13 comentarios:

Vanessa Souza Moraes dijo...

As lembranças nos constituem.

Também.

LUmeNA dijo...

Querido amigo Hakime,

As lembranças ficam sempre tecidas na tua memória, essas lembranças familiares.
Através das sensações e sentimentos presentes, neste momento fazes uma viagem interior para revisitares a tua casa, os teus irmãos, a tua mãe e, por último a tua "mana ciganinha", a pessoa que projetas saudade e, sentimento muito próximo. Esse teu olhar para o passado evoca aspectos nostálgicos, mas mais que tudo está a fertilizar e a revigorar o teu momento presente. Faz-te bem reviver e dialogar com todos nós.
Espero que os vás encontrar breve.
Desejo-te as maiores felicidades nesse encontro, e que tudo corra bem.

Abraços da amiga,
Lumena

Debor@h dijo...

Meu querido chaver sheli,

Qualquer palavra minha agora não adiantaria nada e seria inútil, mas apesar da tristeza e da distância, é bom ter o que lembrar, ainda mais momentos que te fizeram feliz. Podemos sentir através das suas palavras o amor que sente por sua irmã e a saudade que ela te faz, e tenho certeza que tanto sua mãe como sua irmã ainda se lembram muito bem de vc, a memória de criança é como elefante, eu lembro mais de quando era pequena do que de grande ahha ela vai te reconhecer sim e te dar um abração, espero que o tempo passe logo e possa ir visitar sua família. Fica bem amigo, neshikot gdolot!

Jussara Christina dijo...

Eu já falei sobre as lembranças e o nosso baú particular. Sei bem como é isso.
Mas assim como vc me disse, eu te retorno, faz bem lembrar e entender que a maior parte das lembranças são boas!
Vc é lindo e doce! Se vc fosse hétero eu namorava com vc (rssss).
Beijos doces menino sábio e uma exclente, iluminada e abençoada semana! Te adoro viu, vou te add no msn ...

Sandra Botelho dijo...

Meu querido quanta ternura...
Tenha a plena certeza de que ela não se esqueceu de ti, sabe porque o carinho que recebemos nunca é esquecido, ao te abraçar novamente um dia e eu espero que seja breve, ela há de sentir novamente aquele calorzinho que somente os abraços de quem amamos e que nos ama é capaz de transmitir...
Porque não a vê mais?
Volte, talvez ela tambem sofra essa saudade que vc sente em seu peito.
Bjos cheios de ternura...

Paulo Braccini dijo...

coisa mais lindinha isto ... fica bem logo querido ...

bjux

;-)

Je Vois la Vie en Vert dijo...

Pourquoi crois-tu que ta petite soeur t'a oublié ? A 8 ans, on garde ses bons souvenirs et même bien plus tôt. Il peut arriver qu'il y ait des enfants qui enterrent leurs souvenirs douloureux inconsciemment (viols, choques psychologiques) mais les bons souvenirs, tu peux être certain qu'elle s'en souvient ! Elle peut ne pas avoir compris pourquoi tu n'es parti mais si tu lui expliques, elle comprendra et ne t'en voudra pas.
Remonte-moi ce moral car la vie est belle et c'est si bon d'aimer !

Je ne sais pas si tu aimes le football mais tu as vu que les portugais ont gagné contra la Corée 7 à 0 ?

A bientôt

Verdinha

Silvia Angélica Palma dijo...

Que meigo Hakime....a saudade é nosso coração dizendo para onde quer voltar.....bora visitar tua mana garoto....
Beijo pra vc...

Marcela dijo...

Oie!! Obrigada pela visita ao meu blog, volte sempre que quiser.

É sempre muito bem vindo!!!

Uma otima semana pra vc tb!!

Bjs

Elaine Gaspareto dijo...

Querido,
Não sei se foi por causa da música, mas chorei o tempo todo ao ler tuas lembranças.
Amor de irmão assim é o mais próximo que conheço de amor. Acho que por isso as lágrimas...

Mauricio-professor dijo...

Boa noite, amigo!
Saudades de você. Obrigado pelas palavras no meu blog, dirigidas ao meu coração.
Ao ler sobre suas lembranças, suas saudades me faz lembrar das pessoas queridas que estão longe fisicamente de nós. Como dói, uma dor faminta, porém com o tempo aprendemos a dar comida necessária a essa dor. Lembro também de Em busca do tempo perdido, de Proust. Buscamos o quê? A nós? Um outro eu? refletidos nas imagens das pessoas queridas, dos lugares queridos? O que buscamos no passado? O que buscamos em um rosto angelical de uma criança? O nosso aconchego familiar? O que buscamos nas imagens pueris e ingênuas de tempos atrás? O que buscamos ao lembrarmos do cheiro do café da vocó feito quando tínhamos 5 anos? ah, amigo, serão tempos perdidos? Ou tempos encontrados? O que encontramos nesta busca? Abraços saudosos.

Hakime Goul Djounoubi dijo...

Muita gente nem leu direito, mas a maioria leu sim, e vários solidarizaram-se comigo!

Obrigado pelo carinho das visitas, amigos. Vocês são um pedaço de mim que me é muito querido!

:-)

Daniel Savio dijo...

Realmente, uma bela homenagem a tua irmã, mas por que não pode visitar a tua familia tão prontamente?

Sei que você já disse isto em outras ocasiões (da díficuldade de visita-los), mas não disse o motivo...

Fique com Deus, menino Hakime.
Um abraço.